Sempre que há um lançamento de picape, somos convidados pelos marqueteiros e executivos das montadoras a reparar como esses veículos grandalhões passaram a oferecer "dirigibilidade e conforto interno de sedã". Eles SEMPRE dizem isso -- não importa a marca. E não necessariamente é mentira. Conduzir uma Toyota Hilux, por exemplo, é semelhante a conduzir um SW4. Verdade que este último se trata de um SUV -- mas, segundo a fabricante, ele também passa a sensação de sedã...
Esse papo tem se repetido tantas vezes que é até gostoso experimentar uma Ford Ranger cabine dupla, de robustas 2 toneladas e movida por um motor de 3 litros turbodiesel, daqueles que pedem 45 segundos de marcha lenta depois de estacionar, para acalmar a turbina.
Convivi por uma semana com a versão top da linha, a LTD (de Limited) 4x4, e a devolvi à Ford convencido de que nem o mais entusiasmado executivo da marca ousaria dizer que ela lembra um sedã, seja lá no que for. O divertido em conduzi-la, aliás, é justamente o oposto: é uma certa tosquice de "minicaminhão", de veículo que pede muque para ser dominado.
Foto: Murilo Góes/UOL
A Ranger pegando uma terrinha: clique na foto para ver mais imagens
Por exemplo, a Ranger vibra bastante e tem um câmbio duro: os engates são precisos, mas necessitam de força para entrar. A direção é bem assistida, mas não impede que, após um punhado de minutos no trânsito urbano, o corpo comece a solicitar um descanso.
Por isso, se a sua praia é a cidade, não faz o menor sentido ter esse carro. Até porque uma simples ida ao shopping mais próximo da sua casa vai se transformar num inferno na hora de manobrar e achar vaga. Mas quem pega muita estrada e precisa (ou gosta de) encarar caminhos longe do asfalto terá na Ranger Limited uma opção bem interessante -- caso aceite abrir mão do tal "conforto de sedã" em troca de uma experiência mais "roots".
Não que a Ranger não tente agradar: nessa versão top ela entrega bancos de couro com vários ajustes, trio elétrico, computador de bordo (inclusive mostrando a pressão da turbina), um competente sistema de som etc. O acabamento é razoável, e há vários detalhes cromados bem esportivos do lado de fora, suficientes para chamar atenção por onde ela passa (como se não bastassem seus mais de 5 metros). O espaço interno é bom para quatro pessoas, ressalvando que as que viajam atrás têm menos mobilidade para cabeça e pernas. Mas o fato é que nada disso disfarça a vocação utilitária desse veículo.
Na rodagem, a tração 4x4 (com reduzida), engatada por meio de um seletor no painel (seria mais legal se fosse com alavanca), ajudou a segurar a Ranger no traçado em alguns terrenos menos aderentes que experimentamos. O bom torque de 38,7 kgfm a relativamente baixas 1.600 rpm (o motor a diesel gira menos) garante força para todas as situações. E, se o comprimento e o entre-eixos (de 3,19 metros) são meio exagerados para o off-road mais desafiador, os ângulos de entrada e saída e a distância do solo são adequados.
Em estradas de bom asfalto, em velocidade constante, a Ranger desliza agradavelmente -- não como um sedã, mas como uma picape confortável... O consumo médio ficou em torno de 8,5 km/litro.
O mais importante: a linha Ranger deve passar por uma reestilização no segundo semestre desse ano, com mudanças estéticas que antecipam a reforma geral do modelo, prevista para 2012. Ou seja, o preço do carro igual ao que dirigimos deve despencar -- o último caso parecido dentro da própria Ford foi o do Fusion, cujo novo modelo era pedra cantada um ano antes de chegar ao Brasil. Os descontos para as unidades antigas em estoque romperam a barreira dos cinco dígitos.
Como nós a testamos, e segundo o site oficial da Ford, a Ranger Limited cabine dupla custa cerca de R$ 106 mil. Mas a Tabela Fipe já detecta um desconto de R$ 10 mil, cotando o carro zero-quilômetro em R$ 96 mil. À medida que a renovação se aproximar, esse valor deve cair ainda mais. E vai ser possível andar de caminhãozinho bruto quase a preço de sedã médio...
PS - Essa Ranger pesa duas, e não três toneladas (esse é o peso com carga máxima). O post foi corrigido.