22/04/2009
O mundo roda
O não-capitalista que manda na BYD
No Salão de Detroit de 2008, as montadoras chinesas ocuparam todo o subsolo do Cobo Center, o pavilhão de exposições da cidade-sede de General Motors, Ford e Chrysler. Seus carros, que não são comercializados nos Estados Unidos, foram recebidos com narizes empinados, sarcasmo e termos como cheap, junk, trash. Eu mesmo escrevi uma reportagem que refletiu esse clima um tanto constrangedor.
O mundo deu várias voltas desde então: o Salão de Detroit deste ano foi um show de melancolia, GM e Chrysler viraram pedintes, e o Salão de Xangai é o grande assunto automotivo do ano. Em casa, as montadoras chinesas ficam à vontade para exibir desde clones descarados de modelos ocidentais, como o inacreditável Rolls-Royce cover da Geely, até propostas interessantes -- como o carro elétrico e6, da BYD, que parece pronto para entrar em produção.
O repórter Andrew Stevens, da CNN, foi o primeiro a dar uma volta no hatch elétrico, que é, de longe, o carro mais bonito (ou menos feio) dessa marca chinesa. Ele gostou. A autonomia com uma carga da bateria é de 400 km, e a velocidade máxima chega a 160 km/h. O problema é que, para carregar a bateria em casa, é necessário ligar o e6 à tomada por dois dias. Mais rápido que isso, só em pontos de abastecimento especiais, cuja instalação ainda depende do governo chinês (não tenham dúvidas de que serão instalados, aliás).

O e6, que pode ser visto na foto acima, aparece em movimento nessa reportagem em vídeo da CNN. Infelizmente, o ligeiro test-drive de Stevens ficou de fora.
Ficou de fora também a íntegra da entrevista com o presidente da BYD, Wang Chuan-Fu, que tem apenas uma rápida participação no vídeo. Engenheiro de formação, ele criou a empresa, que nasceu como uma fábrica de baterias de celulares, quando tinha 29 anos. Investidores como Warren Buffet acreditaram na BYD quando ela passou a fazer carros, e o negócio cresceu a ponto de permitir ambições globais algo exageradas -- ser a maior montadora do mundo, por exemplo.
Mas o ponto alto do papo com Wang foi quando ele explicou que mora num conjunto habitacional sem nada de luxuoso, perto de onde vivem os operários da BYD, "porque somos todos iguais". E também quando, ao ser perguntado por Stevens sobre se considera a si mesmo um "capitalista", Wang riu muito. E respondeu, simplesmente: "Não, de forma alguma".
Essa é a moral da história: enquanto executivos que ajudaram a afundar megamontadoras ocidentais vestem o pijama embolsando milhões de dólares, os chineses trabalham para dominar o mundo industrial com um capital-socialismo de formiguinha, sob o olhar vigilante de seu governo nacionalista e pragmático.
O mundo deu várias voltas desde então: o Salão de Detroit deste ano foi um show de melancolia, GM e Chrysler viraram pedintes, e o Salão de Xangai é o grande assunto automotivo do ano. Em casa, as montadoras chinesas ficam à vontade para exibir desde clones descarados de modelos ocidentais, como o inacreditável Rolls-Royce cover da Geely, até propostas interessantes -- como o carro elétrico e6, da BYD, que parece pronto para entrar em produção.
O repórter Andrew Stevens, da CNN, foi o primeiro a dar uma volta no hatch elétrico, que é, de longe, o carro mais bonito (ou menos feio) dessa marca chinesa. Ele gostou. A autonomia com uma carga da bateria é de 400 km, e a velocidade máxima chega a 160 km/h. O problema é que, para carregar a bateria em casa, é necessário ligar o e6 à tomada por dois dias. Mais rápido que isso, só em pontos de abastecimento especiais, cuja instalação ainda depende do governo chinês (não tenham dúvidas de que serão instalados, aliás).

O e6, que pode ser visto na foto acima, aparece em movimento nessa reportagem em vídeo da CNN. Infelizmente, o ligeiro test-drive de Stevens ficou de fora.
Ficou de fora também a íntegra da entrevista com o presidente da BYD, Wang Chuan-Fu, que tem apenas uma rápida participação no vídeo. Engenheiro de formação, ele criou a empresa, que nasceu como uma fábrica de baterias de celulares, quando tinha 29 anos. Investidores como Warren Buffet acreditaram na BYD quando ela passou a fazer carros, e o negócio cresceu a ponto de permitir ambições globais algo exageradas -- ser a maior montadora do mundo, por exemplo.
Mas o ponto alto do papo com Wang foi quando ele explicou que mora num conjunto habitacional sem nada de luxuoso, perto de onde vivem os operários da BYD, "porque somos todos iguais". E também quando, ao ser perguntado por Stevens sobre se considera a si mesmo um "capitalista", Wang riu muito. E respondeu, simplesmente: "Não, de forma alguma".
Essa é a moral da história: enquanto executivos que ajudaram a afundar megamontadoras ocidentais vestem o pijama embolsando milhões de dólares, os chineses trabalham para dominar o mundo industrial com um capital-socialismo de formiguinha, sob o olhar vigilante de seu governo nacionalista e pragmático.
Escrito por Claudio de Souza às 14h13
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