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29/01/2010

Dirigimos

Um dia de piloto em Interlagos

Os fãs da velocidade que disponham de um "dinheirinho" extra -- mais ou menos R$ 4.000 -- podem ter seu dia de piloto de verdade, e em plena pista de Interlagos. É o que oferecem algumas escolas de pilotagem de São Paulo, que ministram seus cursos no autódromo mais importante do Brasil. Depois das aulas e de uma prova teórica (e, claro, mediante o pagamento de salgadas taxas), o neopiloto poderá tirar sua carteirinha na federação de automobilismo (categoria B), habilitando-se a competir em algumas modalidades do calendário automobilístico.

O site parceiro Carsale experimentou o curso da Escola de Pilotagem Manzini -- que possui convênio com a Renault e utiliza modelos Mégane em suas aula -- e o da Alpie. Tocada pela família Piedade (o nome vem de Aldo Piedade, ex-piloto), essa escola oferece curso na categoria Turismo -- a bordo de uma frota de Celta 1.4 em parceria com a Chevrolet -- e é a única do Brasil a ministrar também aulas de Fórmula (monoposto).

A repórter Larissa Florencio, do Carsale, produziu um vídeo sobre os cursos da Manzini e da Alpie, o qual você pode ver logo abaixo. E eu experimentei uma aula de Fórmula, que rendeu as fotos desse post (também andei de Turismo, mas isso foi há muito tempo) e cujo relato faço a seguir.


No vídeo do Carsale, veja como é estar a bordo dos carros

Resumindo minha experiência na Alpie: primeiro, há uma aula teórica, que consiste em assistir a um vídeo explicativo do carro, da pista de Interlagos e das regras gerais do automobilismo -- como, por exemplo, o significado das bandeiras exibidas pelos fiscais de prova.

A segunda etapa do curso já é realizada na pista. Sem muitas delongas, e trajando macacão, luvas e sapatilhas (fornecidos pela escola, mas quem tiver equipamento próprio fará bem em levá-lo), somos convidados a abordar os carrinhos monoposto, dotados de motor 1.6 de 90 cavalos, abastecido com álcool, carburado, herdado da extinta Fórmula Ford -- como explicou Emerson Piedade, piloto profissional e um dos donos da Alpie.

Num primeiro momento, os alunos fazem um circuito num trecho externo da pista de Interlagos, para se familiarizar com o carro e treinar o punta-tacco -- manobra que consiste em sincronizar a frenagem com o acionamento do acelerador, subindo o giro do motor para acolher reduções de marcha sem perda de tempo nas retomadas (como em saídas de curva). Já que ninguém que seja normal faz punta-tacco no trânsito urbano, demora um pouco para pegar o jeito da manobra. O câmbio "roots" do Fórmula, com marchas duras de entrar e em posições inusuais, além do trambulador exposto ao lado do piloto, aumentam uma certa sensação de estranhamento.

Fotos: Divulgação

Primeira lição: em circuito, alunos treinam punta-tacco


Em seguida, a ordem é se concentrar para ir à pista

Por uma questão de segurança, as primeiras voltas na pista de Interlagos são feitas com o motor "travado": a equipe mecânica da Alpie limita a entrada de ar no carburador. Emerson prefere não revelar qual a velocidade máxima aproximada do carrinho nessas condições, mas eu chuto que chegue a uns 130 km/h (a bordo, nós só vemos o conta-giros). De qualquer modo, deslizando a poucos centímetros do asfalto, a sensação é de estar correndo bem mais.

Com o motor limitado, minha melhor volta (entre dez) cravou o tempo de 3min01s45. Trata-se de uma marca absolutamente medíocre, admito. Todos os outros alunos obtiveram tempos melhores. Considerando os 4,3 km de extensão de Interlagos, a média de velocidade foi de (ridículos) 82 km/h.

Nessa fase, no entanto, importante mesmo é entender como "negociar" a pista -- um rico treinamento que é favorecido pelo traçado peculiar de Interlagos, de curvas variadas (pedindo alta velocidade ou muita técnica), duas retas, aclives e declives interessantes etc. É a chance de aprender a frear no ponto certo, a "desenhar" a curva na tangente e a retomar a aceleração sem hesitações.


Deu zebra? Sim, ela está ali para isso mesmo...

Como você pôde ver no vídeo do Carsale, as aulas com carros convencionais (seja da Manzini, seja da Alpie) são ministradas com um instrutor a bordo, funcionando como copiloto do aluno. Obviamente, isso é impossível nos carros de Fórmula da Alpie. Neles, o candidato a piloto tem de se concentrar em dobro -- principalmente nas frenagens, empregando o punta-tacco e brigando um pouco com o câmbio "diferente".

Num segundo momento da aula, certamente o mais emocionante, o motor é liberado pelos mecânicos, e o aluno deixa os boxes e volta à pista com seu Fórmula capaz de, no final de uma reta, chegar a 190 km/h. A diferença é sentida imediatamente no pé do piloto, e pede um pouco de cautela.

Que, é claro, eu mesmo não tive: logo na primeira volta com o motor "full", deixei a Reta Oposta numa velocidade exagerada e, ao entrar na Curva do Lago, rodei e fui parar na grama. Não há nada a fazer quando isso acontece: você se transforma em passageiro do carro; só resta esperar que ele pare e torcer para não se machucar nesse processo.

Não me feri, nem nada aconteceu com o carro. Em instantes, uma equipe de socorro surgiu num veículo de apoio (uma ambulância fica de prontidão durante toda a aula), verificou que eu estava bem, e pude voltar à pista imediatamente.

Por alguma razão interior (orgulho ferido?), passei a pilotar de modo bem mais agressivo, tratando o câmbio e os pedais com certa violência (raiva?) e entrando rápido e grudado no chão nos trechos mais emocionantes da pista -- como o Mergulho, seguido da Junção, e a trabalhosa, mas prazerosa, sequência formada pelo S do Senna e o começo da Reta Oposta. Trata-se de um raro prazer para quem gosta de velocidade e de carros.


No S do Senna, um dos pontos mais prazerosos de Interlagos

Pilotei até o sol quase se pôr; a visibilidade já começava a ficar precária quando entrei nos boxes de Interlagos pela última vez. Mais tarde, soube que meus tempos após a rodada foram muito melhores -- minha volta mais rápida cravou razoáveis 2min28s72, em linha ou até abaixo dos demais alunos, e indicando uma velocidade média de 104 km/h. O melhor tempo com um Fórmula, naquele dia, foi de 2min18s99, obtido por um dos instrutores (média de 111 km/h).

Mas é claro que, no final de ambas as retas (dos Boxes e Oposta) e antes da freada no final do Mergulho, eu e meu simpático monoposto nº 6 chegamos a velocidades próximas a 180 km/h. Com o corpo a poucos centímetros do solo, envolto em escassa carenagem, é mais ou menos como estar ao volante de um kart a jato. Por isso, quando deixei Interlagos e fui para casa dirigindo meu carro "normal" pela Marginal Pinheiros, tive a sensação de que o mundo anda devagar demais fora da pista.

Quer tentar?
As escolas de pilotagem ministram suas aulas práticas na pista de Interlagos, e por isso têm um calendário rígido. No caso da Alpie, por exemplo, a próxima aula será no dia 2 de fevereiro, mas já está lotada. A seguinte será dia 22. Convém ligar com antecedência e se informar minuciosamente sobre horários e preços; os R$ 4.000 citados lá em cima são uma estimativa de custo que já inclui taxa de diploma e gastos extras. A seguir, duas opções de escolas de qualidade amplamente comprovada:

- Escola de Pilotagem Alpie -- Av. Senador Teotônio Vilela, 373; tel.: 11-5666-3007; e-mail: alpie@alpie.com.br; visite o site.

- Centro Pilotagem Roberto Manzini -- tel.: 11-5667-5353; visite o site.

Escrito por Claudio de Souza às 17h36


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